13 fev Número de links – regra 7 ± 2

 

Estudos de George A. Miller mostram que a memória humana retém de cinco a nove (sete mais ou menos dois) coisas ao mesmo tempo. Baseiam-se no princípio que o cérebro humano tem limitações para lidar com a complexidade, e por isto tende a dividir as informações que recebe em diferentes segmentos. (1) Este princípio pode ser considerado como referência, mas não como regra, para a determinação do número de links em telas de mídias digitais .

Miller resume assim o resultado de suas observações:

Há um limite claro e definido para a acuidade, com o qual podemos identificar absolutamente a magnitude de uma variável de estímulo unidimensional. Eu proporia chamá-lo de segmento de julgamento absoluto (span of absolute judgment) e sustento que para julgamentos unidimensionais este limite é normalmente alguma coisa na vizinhança de sete. No entanto, não ficamos completamente à mercê deste limite, porque temos uma variedade de técnicas para circunscrevê-lo e aumentar a precisão dos nosso julgamento. Os três dispositivos mais importantes para isto são: (a) fazer julgamentos relativos, ao invés de julgamentos absolutos; se isto não é viável, (b) aumentar o número de dimensões ao longo das quais o estímulo pode variar; ou (c) posicionar a tarefa de um modo que façamos uma sequência de diversos julgamentos em sequência um após o outro. (livre tradução)

Miller deixa claro que suas conclusões não estabelecem uma regra numérica precisa, e que o universo examinado se relaciona a “estímulos unidimensionais”, ou universos circunscritos a variáveis relativizáveis através do aumento de dimensões subjetivas (“julgamentos relativos”), contextos de inserção (“número de dimensões) ou ordem de posicionamento.

Assim, no projeto da experiência de usuários em platormas digitais, embora se possa usar o número sete como referência para a inserção de links em barras de navegações, podemos também adaptar as três ressalvas propostas:

Exemplo de p�gina web com muitos links

1) A receptividade do número de links varia de acordo com o interesse específico de cada usuário no assunto do site examinado. Ou seja, ao acessar um site pela primeira vez, um usuário verifica se atende às suas expectativas através de uma primeira varredura rápida com os olhos sobre o conjunto de informações, que incluem layout, chamadas, títulos dos textos, rótulos dos links. Se verifica que o assunto principal interessa ou encontrar o que procura, tende a ficar mais tempo examinando as opções de conteúdo, e por isto se dispõe a ler uma maior quantidade de links. Caso não tenha interesse, possivelmente lerá um número bem menor que sete antes de procurar outro site ou aplicativo.

Exemplo de página web com muitos links

2) O número de links se relaciona ao universo informacional no qual a estrutura está inserida.Num contexto web, como as circunstâncias de acesso são diferentes para computadores e dispositivos móveis, o número de links para acesso fixo ou móvel pode ser diferente, sendo que nestes últimos está relacionado aos mais acessados ou de maior importância para acesso rápido. Num noticiário, a seção “Cidade”, na web fixa, pode ter notícias sobre a cidade onde o veículo tem sede. Já num dispositivo móvel pode estar relacionada ao local onde o usuário se encontra. Neste caso, o universo considerado varia de acordo com as condições de acesso, e o número de links precisa considerar as especificidades de cada uma.

Num site web ou app de varejo, o número de links, normalmente alto, não intimida os usuários acostumados a passear presencialmente nas grandes lojas de departamentos. Neste caso, tende-se a procurar os assuntos mais gerais e depois os mais específicos, ou seja, os usuários fazem suas triagens de interesse enquanto navegam.

Exemplo de página web com muitos links

3) O encadeamento lógico entre unidades de informação pode aumentar as chances de mais links serem lidos e acessados. Se encontramos diferentes informações agrupadas por proximidade, e se conhecemos o assunto publicado, percebemos que na sequência de unidades podemos encontrar mais elementos que nos interessem. Ou seja, se os primeiros itens estão encadeados e nos interessam, tendemos a verificar se os elementos seguintes também nos interessam.

Já se não conhecemos o assunto publicado, não podemos avaliar se os links estão relacionados, e tendemos a selecionar logo o que parece atende às nossas demandas, antes mesmo de ler todas as opções. Neste caso, a presença de muitas opções pode ser contraproducente. É o caso de sites para pesquisas escolares. Se um aluno do Ensimo Médio precisa fazer um trabalho sobre cultura propular brasileira e não conhece o assunto, selecionará os primeiros links do resultado de uma busca que lhe pareçam satisfatórios. Possivelmente não chegará a ler o sétimo.

Pesquisa realizada em 2010 mostra que o primeiro link numa página de resultado de busca direcionou 34.35% de todo o tráfico, quase a soma do total direcionado pelas posições de 2 a 5, e mais que o total combinado de acessos das posições de 5 a 20 (final da segunda página). (2)

De qualquer forma, independentemente das suas conexões semânticas, o número de links deve se manter num limite que preserve a qualidade da experiência dos usuários. Não é à toa que o Google recomenda a inserção de um número máximo de links por página.

■ Em sites com poucos links, o número sete pode ser uma solução possível, mas este número não pode ser adotado como regra. Este número varia de acordo com o tamanho do site (que exige balanço entre extensão e profundidade), de acordo com o modelo de priorização adotado, de acordo com o perfil e a motivação dos usuários, com contextos culturais mais amplos.

Para a tomada de decisões e a diminuição das incertezas e riscos sobre os tamanhos das barras de navegação, é importante inserir nos testes de usabilidade perguntas e tarefas sobre o número de links, sobre o universo informacional abordado, sobre os interesses de cada usuário e os critérios de organização dos agrupamentos temáticos. Desta maneira, pode-se balancear adequadamente a quantidade de links globais e das camadas de cada página, de modo a estabelecer agrupamentos internamente compatíveis e a atender aos interesses gerais e específicos de cada usuário.

Fonte:avellareduarte

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